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Crise política

Até que consigamos amadurecer

segunda-feira 22 de maio de 2017, por Miriam Duailib

Se gritar pega ladrão, não sobra um meu irmão", já afirmava a canção popular. Verdade? Não. Sobram sim.

Sobram milhares de micro, pequenos e médios empresários ( e até alguns -poucos- grandes) que enfrentam com coragem a burocracia, a enorme taxa de impostos, a instabilidade do mundo dos negócios e persistem gerando trabalho, emprego, renda e impostos aos brasileiros e ao Brasil;
...sobram milhões de trabalhadores rurais e urbanos que diariamente labutam pelo menos 08 horas, ou de sol a sol, enfrentando toda sorte de dificuldades de acesso ao trabalho, de condições insalubres, de salários baixos, de medo de perder o emprego e mesmo assim se sentem privilegiados por ter trabalho;
...sobram estudantes que frequentam escolas, muitas vezes, precárias, que trabalham o dia todo e à noite estudam em faculdades calorentas, superlotadas e ainda encaram o medo da violência na volta ao lar, mas persistem em busca de um futuro melhor; sobram milhões de mulheres/mães/donas de casa/domésticas/artesãs/cozinheiras/costureiras/vendedoras/professoras/enfermeiras/babás que tomam a si a responsabilidade de cuidar dos seus filhos e os da patroa, de ensinar-lhes como se dá a vida real, de protege-los do narcotráfico e do crime organizado com suas tentações em forma de correntes de ouro e motos de muitas cilindradas, que percorrem feiras em hora da xepa para tentar comprar boa comida com os parcos ganhos da familia;
...sobram os artistas e os intelectuais honestos que insistem em sua arte e em sua busca de conhecimento, em sua postura altiva, mesmo enfrentando a massificação cultural e o apequenamento intelectual do país;
sobram ativistas da sociedade civil que se aglutinam em ONGs, movimentos sociais, associações e gritam, perturbam, fazem abaixo assinados, manifestações, lobby do bem no congresso, tentando barrar as barbáries dos que querem destruir nosso meio ambiente, como se isto não fosse comprometer todo o presente e futuro do país e do Planeta e lutam para tentar freiar a retirada sistemática de direitos da população, para barrar as tenebrosas negociações feitas na calada da noite para benefícios dos grupos que financiam os governantes de ocasião;
...sobram os valorosos cientistas brasileiros que, a despeito da falta de verbas, de laboratórios de ponta, fazem ciência e pesquisa de alta qualidade sem abandonar o país para brilhar lá fora, ou indo e voltando, e aqui instalando laboratórios para ensinar ciência aos jovens do povo; sobram maestros e suas orquestras de periferia; sobra tanta gente boa, honesta, bem intencionada.

Para que esta gente toda possa ser representada no cenário político do país, precisamos amadurecer como população. Sair da visão adolescente de mocinho x bandido, aprendermos a refletir, a ler nas entrelinhas, a nos perguntarmos quem está por detrás das informações, quais os interesses deste ou daquele grupo de mídia e estudar história e geopolítica.

Quando amadurecermos enquanto eleitores, teremos sim a possibilidade de ter governos que representem a diversidade e a beleza de nosso povo. Temos que aprender a exercer a cidadania de forma responsável - que é muito mais do que ir às ruas gritando fora um ou outro - sem ódio, promover debates baseados em fundamentos e não em xingamentos e acusações sem nexo, voltar a ter formação política nos bairros, nas associações, nas escolas. Só assim conseguiremos garantir uma democracia plena, ética, garantidora de direitos, cumpridora de deveres.

Até que consigamos amadurecer, teremos que conviver com o bando que elegemos ou que apoiamos para dar golpes. E chorar e lamentar quando descobrimos a verdade...

Na ilustração, O Pequeno Mercador de Frutas, de Bartomole Steban Murilo

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